Faz tempo que não há viagem.
Não por falta de vontade, mas porque a vida foi se organizando em torno do cuidado. Quando alguém depende de você, sair exige mais do que arrumar uma mala. Exige deixar tudo em ordem, antecipar imprevistos, confiar que o que foi combinado vai sustentar a ausência.
O preparo cansa.
Há listas, conversas, ajustes, uma atenção redobrada a cada detalhe. Cuidar antes de poder sair é quase tão exigente quanto ficar.
Ainda assim, algo começa a mudar antes mesmo da partida.
A ideia da viagem se instala aos poucos. A lembrança da praia, o jeito como o corpo descansa ali, o ritmo diferente dos dias. A expectativa não elimina o peso — mas abre espaço dentro dele.
É curioso como a viagem começa muito antes de acontecer. Começa quando se imagina o caminho, quando se lembra do que faz bem, quando surge a certeza de que haverá lembranças boas depois. Mesmo sabendo que o retorno trará tudo de volta, a ida já oferece um sopro.
Não é fuga.
É respiro.
Há coisas que ainda seguram.
Às vezes, é só isso: a possibilidade de alguns dias diferentes, aguardados com cuidado, construídos com esforço, mas carregados de algo que sustenta antes, durante e depois.
*Outros textos seguem por aqui.