A vida na infância era boa.
Não porque tudo fosse perfeito, mas porque quase tudo era nosso.
A rua era nossa.
Brincávamos sem precisar combinar.
Jogávamos qualquer coisa que desse para jogar.
Andávamos de bicicleta até cansar, depois sentávamos no meio-fio como se o dia ainda estivesse começando.
Inventávamos inimigos imaginários para lutar — e eles desapareciam assim que alguém chamava para outra brincadeira.
Não havia diferença entre pobres e ricos.
Havia quem chegava primeiro, quem corria mais rápido, quem sabia chutar melhor. Só isso.
Tínhamos uma turma.
Nem sempre a mesma, nem sempre completa.
Mas suficiente.
O futebol acontecia na calçada.
As goleiras eram dois chinelos jogados no chão.
As regras mudavam conforme o espaço, o humor e o tamanho do time.
O movimento de carros era mínimo.
O perigo parecia distante.
A rua permitia distração.
A vida era mais simples.
As preocupações eram poucas — e cabiam no bolso do dia.
O tempo corria devagar.
Não porque fosse menos cheio,
mas porque não estava sempre tentando chegar a algum lugar.
*Outros textos seguem por aqui.