Há uma dor que não vira palavra.
E isso, por si só, já dói.
Não é um episódio isolado nem um dia ruim que se consiga localizar no calendário. É um estado. Algo que se instala e permanece sem forma clara, sem nome disponível. A pessoa sente que não está bem, mas quando tenta explicar, a linguagem falha.
Não falta vontade de falar.
Falta onde apoiar a experiência.
Essa dor não se apresenta de maneira dramática. Ela não grita, não interrompe tudo, não exige explicações imediatas. Ela segue junto — atravessando a rotina, as conversas, os compromissos — discreta o bastante para ser ignorada por fora, constante o suficiente para doer por dentro.
Às vezes aparece no corpo. Outras vezes no cansaço que não passa, na irritação sem alvo, na sensação de estar sempre um pouco deslocado de si. Não é fácil apontar onde começa nem o que exatamente a alimenta.
Quando alguém pergunta o que está acontecendo, a resposta costuma ser curta. “Não sei.”
E essa impossibilidade de dizer também pesa.
Porque há uma solidão específica em sentir dor sem conseguir nomeá-la.
Uma solidão que não vem da falta de pessoas, mas da falta de palavra.
Ficar assim por um tempo é possível.
Seguir, mesmo sem entender direito, também.
E quando o tempo passa,
e a dor não,
talvez não seja preciso seguir sozinho.
*Outros textos seguem por aqui.