Quando o barulho diminui, nem sempre vem alívio.
O som de fora pode cessar, mas nem tudo acompanha esse ritmo.
O dia desacelera. As vozes se afastam.
E algo continua.
Pensamentos que não avisam. Sensações que não obedecem ao horário. Coisas que não foram embora junto com o cansaço físico.
O silêncio não organiza.
Ele deixa.
Nem todo silêncio é solidão.
E nem todo barulho é companhia.
Há momentos em que o barulho serve como proteção. Mantém distância do que não se quer tocar. O silêncio, quando chega, não pergunta se é um bom momento.
O que aparece nem sempre pede solução.
Nem sempre pede nome.
Às vezes, só permanece.
Ficar consigo mesmo, sem tarefa, sem urgência, sem distração, pode ser mais difícil do que parece. Não por falta de força — mas porque não há onde se apoiar.
O ruído interno não precisa ser alto para ocupar espaço. Ele se manifesta nos intervalos, nos vazios, nas pausas que não estavam previstas.
Nem sempre estamos prontos para isso.
Nem sempre precisamos estar.
O que permanece quando o barulho diminui não é, necessariamente, algo quebrado. Pode ser apenas algo que ainda não teve lugar.
E reconhecer isso — sem apressar, sem concluir — talvez já seja suficiente.
*Outros textos seguem por aqui.